A paralisação da fundição de alumínio da Mozal, ocorrida em Março de 2026 e que gerou forte preocupação entre trabalhadores, empresários e investidores, poderá estar mais próxima do fim. O Governo moçambicano alcançou um entendimento preliminar com parceiros sul-africanos e australianos para viabilizar a reabertura gradual da maior fundição de alumínio do país, através de uma profunda reestruturação da sua composição accionista.
Segundo informações avançadas pelo jornal Evidências, as negociações em curso apontam para um reforço significativo da participação do Estado moçambicano na empresa, numa tentativa de garantir maior estabilidade na gestão do empreendimento e evitar novos conflitos relacionados com o fornecimento de energia eléctrica, um dos principais factores que levaram à suspensão das operações.
Antes da interrupção das actividades, a estrutura accionista da Mozal era dominada pela multinacional australiana South32, que detinha 63,7% das acções. A sul-africana Industrial Development Corporation (IDC) possuía 32,4%, enquanto o Estado moçambicano mantinha apenas 3,9% do capital social da empresa.
Com o fracasso das rondas negociais anteriores e a consequente entrada da fundição no regime de "care and maintenance" (manutenção e conservação) a partir de 15 de Março, o Executivo decidiu adoptar uma nova abordagem. A estratégia passa por substituir os modelos de negociação anteriores por um diálogo directo entre governos, envolvendo de forma activa as autoridades de Moçambique e da África do Sul.
No centro da crise esteve o desacordo sobre o preço da energia eléctrica. A South32 defendia tarifas mais baixas para manter a competitividade da produção de alumínio nos mercados internacionais. Por outro lado, a Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB) considerava que os preços propostos colocariam em risco a sustentabilidade financeira da empresa, recusando-se a fornecer energia abaixo do custo considerado viável.
Para ultrapassar este impasse, o novo modelo em discussão prevê a entrada da HCB na estrutura accionista da Mozal. Esta medida permitirá ao Estado reforçar a sua influência nas decisões estratégicas da empresa, ao mesmo tempo que cria um maior alinhamento entre os interesses da indústria e do sector energético.
Outra novidade é a possível integração da empresa pública sul-africana Eskom na nova composição accionista. A entrada da gigante energética sul-africana deverá ajudar a garantir o fornecimento complementar de energia necessário para o funcionamento pleno da fundição, reduzindo a dependência de uma única fonte e diminuindo os riscos de futuras divergências tarifárias.
Fontes próximas do processo indicam que a participação conjunta da HCB e da Eskom poderá criar uma base mais sólida para o funcionamento sustentável da Mozal, assegurando maior previsibilidade tanto para os accionistas como para os trabalhadores e fornecedores ligados ao projecto.
Localizada em Beluluane, no distrito de Boane, província de Maputo, a Mozal é considerada um dos maiores investimentos industriais realizados em Moçambique desde a independência. A empresa desempenha um papel estratégico na economia nacional, contribuindo significativamente para as exportações, para a arrecadação de receitas fiscais e para a geração de milhares de empregos directos e indirectos.
A suspensão das actividades teve impactos consideráveis. Além das preocupações com o emprego e a actividade económica, a empresa estimou custos superiores a 60 milhões de dólares apenas para a conservação das instalações durante o período de paralisação. A situação obrigou igualmente ao reconhecimento de uma imparidade contabilística avaliada em cerca de 372 milhões de dólares relacionada com os activos da fundição.
Caso as negociações actualmente em curso sejam concluídas com sucesso, a Mozal poderá regressar às operações ainda este ano sob uma nova estrutura empresarial. O Governo acredita que a nova configuração accionista permitirá proteger melhor os interesses nacionais, garantir maior segurança energética e assegurar a continuidade de um dos projectos industriais mais importantes para o desenvolvimento económico de Moçambique.
A concretizar-se, a reabertura da Mozal representará não apenas a recuperação de uma importante unidade produtiva, mas também um sinal de confiança para investidores nacionais e estrangeiros, reforçando o compromisso do país com a preservação de empregos, a industrialização e o crescimento económico sustentável.